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Palavra
O que é uma palavra...
quando te digo tantas
em todos os instantes?
O que é uma palavra...
quando o silêncio se instala
e as ausências se notam?
O que é uma palavra?
Quando é de Amor?
O que é uma palavra?
É quando a Sonhamos?
O poema 'Palavra' foi publicado na Poiesis I, da Editorial Minerva.
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MORREM
AS ÁRVORES DE PÉ?
Uma árvore cai!..
... não se (lhe) ouve um som.
Na Natureza
a morte é sempre assistida do silêncio.
As outras árvores choram...
e o seu pranto é mais pungente
que a dor do tronco magoado,
a descer lentamente por entre a vegetação,
até esmagar o solo. |
| O olhar secreto de
Aline
A Aline, de quem me perdi no bulício deste Mundo.
Na calma de certos dias,
quando o silêncio me habita
e a reflexão tece em mim a sua fina teia,
recordo-me de Aline, a pequena companheira
[Porque pequenas éramos nós duas,
naquelas tardes soalheiras
que o clima não mais soube compor de forma igual]
afastada de mim
pela imensidão do espaço
e pelo destino dos tempos.
Relembro o seu olhar plácido sobre as águas,
(Em que pensas? Onde repousa a tua mente?
Estará muito para além do mar profundo, como a
adivinho?)
o seu semblante conhecedor,
(Que sabedoria dominas, que não me é permitido
alcançar?
Porque tem de ser tão difícil partilhares-te comigo?)
e o porte de princesinha
velado a olhares mais fugazes.
[O que faltará à Humanidade para apr(e)ender este
mundo diferente?
Que dom estará a ausentar-se da nossa Existência
e a impedir-nos de aceder a uma outra
dimensão?
Onde reside em nós a profundidade do mar que conquistava
o olhar secreto de Aline?..]
Tocam-me a memória folhas soltas dessas ocasiões.
Folhas que se amontoam,
como a minha saudade e a minha nostalgia.
Quando voltarás?
- O Homem perde-se de si próprio,
dia após dia, Vida após Vida,
sempre que recusa conhecer o mundo de outrém!
Helena de Sousa Freitas
Setúbal, Abril de 1997
O poema "O olhar secreto de Aline" obteve o 3º
Prémio no Concurso de Poesia da APPACDM (Associação
Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental)
subordinado ao tema 'Um Olhar Diferente'.
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Quando te espero
Deito-me, mas até o sono me recusa a companhia...
Tudo se me subtrai e o desconsolo vence-me se não te
encontras por perto.
Tudo é infinito e vago,
tudo é impreciso no Mundo como a despedida dentro de
mim.
Jaz a noite em doloroso silêncio
enquanto aguardo que o dia clareie sobre a cidade,
para que o medo da tua ausência se me perca por dentro.
Quero que a luz da manhã me inebrie os sentidos e a vida
e que o tempo me arraste para longe,
para ser derrotada pelo esquecimento se não voltares.
Porque então não poderei dar de beber à
sede do teu corpo
nem desaguar nela o dilúvio que guardo.
Toda a minha rebeldia se exalta,
todo o meu sangue se inquieta,
se não sei de ti
Tenho o olhar submerso em melancolia
e o espírito varrido pela saudade.
Vejo-te em toda a parte, tu estás em tudo e em todos
porque, afinal,
talvez não te encontres em nada nem em ninguém.
Como é mortal a tua distância de mim.
Como tarda o tempo:
como é permanente a noite e lento o dia,
como se prolongam as horas
Como me sinto sufocar de ansiedade,
Quando te chamo
e tu demoras!..
Helena de Sousa Freitas
Setúbal, 27 de Novembro de 1997
O poema 'Quando te espero' foi
publicado pela Editorial Minerva na coletânea '(De)Corrente'.
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| Boa noite
sobre a Terra
A noite abre-se,
quente e seca,
sob o Céu, sobre a Terra.
Espreguiça-se, languidamente,
e abraça o Mundo
com os seus braços finos.
Tem uns olhos grandes,
escuros e espantados
e uma voz melodiosa,
de grilos e cigarras.
Mas esta noite
está irrequieta,
em desassossego:
repara como os solos ardem,
como as árvores se abatem,
como os homens se perseguem e mutilam.
A noite está descontente.
Abre a boca, solta um grito:
- Um raio rasga a Terra,
uma chuva intensa começa a cair.
O dilúvio alaga os continentes
e extingue a vida humana.
É a noite que está
a chorar...
... desconsolada.
Helena de Sousa Freitas
Setúbal, Maio de 1999
O poema 'Boa noite sobre a Terra' foi incluído na exposição
'De Verdes Palavras' (sobre escrita e ecologia).
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Fragilidade
Fiquei frágil
de repente
as forças dissolvidas
em espuma e delírio,
numa ausência de certezas.
Como não temer o que se
mostra
do que se sente
quando o chão nos escapa
debaixo do corpo?
Acreditar em que palavras
quando tudo o que se escreve
nos deixa sem resposta,
nos confunde e derrota?
A dúvida alastra e devora-me.
Cada degrau vacila.
Só o que se pressente é
timidamente seguro.
O Sol instalado nos dias
já nada nos diz,
apenas fere fundo o espírito
e os pés solitários na terra fria.
Onde tudo em mim é bulício,
engano e abandono
permanece,
mal esquecido,
um gesto teu
Helena de Sousa Freitas
Lisboa, Setembro de 2000
O poema 'Fragilidade' foi seleccionado pelo Cantinho do Poeta
II para integrar um CD de Poesia, já lançado.
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